Séculos XVII e XVIII
As terras atualmente pertencentes ao Ceará foram doadas
a Antônio Cardoso de Barros, mas este não se
interessou em colonizá-las e sequer chegou a visitar
a capitania. A primeira tentativa séria de colonização
ocorre com Pero Coelho de Sousa, que lidera a primeira bandeira
feita em 1603, demonstrando por isso certo interesse em colonizar
o Ceará. A missão dos bandeiristas era explorar
o Rio Jaguaribe, combater piratas, "fazer a paz"
com os indígenas e tentar encontrar metais preciosos.
Após construírem o Forte de São Tiago,
às margens do Rio Ceará e verificarem a inexistência
de riqueza na região, Pero Coelho passou a escravizar
índios, que se revoltaram e destruíram o forte,
obrigando os europerus a fugirem para as ribeiras do Rio Jaguaribe,
onde construíram o Forte de São Lourenço.
Devido às hostilidades dos nativos e à seca
de 1605-1607, Pero Coelho viu-se obrigado a deixar o Ceará.
Em 1612, sob o comando de Martim Soares Moreno (considerado
posteriormente o "fundador" do Ceará),
foi construído, às margens do Rio Ceará,
o Forte de São Sebastião, local conhecido
atualmente como Barra do Ceará (divisa entre os Municípios
de Fortaleza e Caucaia).
O Forte São Sebastião de Martin Soares MorenoA
colonização do Estado, iniciada no século
XVII, foi dificultada pela forte oposição
das tribos indígenas e as invasões de piratas
europeus. Só tomou impulso com a construção,
na embocadura do Rio Pajeú, do forte holandês
Schoonenborch, que em 1654, foi tomado pelos portugueses
e passou a ser chamado Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.
Em volta dessa Fortaleza formou-se a segunda vila do Ceará,
a vila do Forte, ou Fortaleza. Depois de muita disputa política
entre Aquiraz e Fortaleza, a última passou a ser
a capital do Ceará, oficialmente à partir
de 13 de abril de 1726 (Data em que se comemora o aniversário
da cidade).
Houve duas frentes de ocupação do território
cearense: a do sertão-de-fora, controlada por pernambucanos
que vinham pelo litoral; e a do sertão-de-dentro,
dominada por baianos. Graças à pecuária
e aos deslocamentos de pessoas das áreas então
mais povoadas, praticamente todo o Ceará foi ocupado
ao longo do tempo, levando ao nascimento de várias
cidades importantes nos cruzamentos das principais estradas
utilizadas pelos vaqueiros, como Icó. Ao longo do
século XVIII, a principal atividade econômica
cearense foi a pecuária, levando muitos historiadores
a falarem que o Ceará se transformou em uma Civilização
do Couro, pois a partir do couro se faziam praticamente
todos os objetos necessários à vida do sertanejo
através de um rico artesanato.
O comércio do charque foi decisivo para a vida econômica
do Ceará ao longo do século XVIII e XIX. Com
ele passou a existir uma clara divisão do trabalho
entre as regiões do Estado: no litoral se encontravam
as charqueadas e, no sertão, as áreas para
criação de gado. O charque também permitiu
o enriquecimento de proprietários de terras e de
comerciantes, bem como o surgimento de um pequeníssimo
mercado interno local. Durante o auge do comércio
do charque, a principal cidade cearense foi Aracati, mas
também floresceram outros centros regionais, como
Sobral, Icó, Acaraú, Camocim e Granja. Outras
cidades nasceram a partir de aldeamentos indígenas,
onde os nativos (isto é, o que restava deles) eram
confinados sob o controle de jesuítas, responsáveis
por sua catequização e aculturação.
Este foi o caso de cidades importantes como Caucaia (outrora
chamada Soure), Crato, Pacajus, Messejana e Porangaba (as
duas últimas atuais bairros de Fortaleza). Os indígenas
cearenses foram, em sua maior parte, massacrados, embora
tenham resistido até o início do século
XIX. Um dos maiores exemplos de sua resistência foi
a Guerra dos Bárbaros, na qual indígenas de
diversas tribos (Cariri,Janduim, Baiacu, Icó, Anacé,
Quixelô, Jaguaribara, Canindé, Tremembé,
Acriú, etc.) se uniram para lutar contra os conquistadores,
resistindo bravamente durante quase 50 anos.
O Ceará torna-se administrativamente independente
de Pernambuco em 1799. Nas décadas anteriores, o
cultivo do algodão começou a despontar como
uma importante atividade econômica, gerando um período
de prosperidade para a capitania. Com a recuperação
da cotonicultura dos Estados Unidos, o algodão e
o próprio Ceará entram em crise, o que explica
o envolvimento de cearenses na Revolução Pernambucana
de 1817 e na Confederação do Equador.
Século XIX
O século XIX também foi marcado por alguns
movimentos revolucionários e conflitos. Em 1817,
alguns cearenses, liderados pela família Alencar,
apoiaram a Revolução Pernambucana. O movimento,
no entanto, ficou restrito ao Cariri e, especialmente, à
cidade do Crato, e foi rapidamente sufocado. Em 1824, os
mesmos ideais republicanos e liberais apareceram num movimento
mais amplo e organizado: a Confederação do
Equador. Aderindo aos revoltosos pernambucanos, várias
cidades cearenses, como Crato, Icó e Quixeramobim,
demonstraram sua insatisfação com o governo
imperial. Após choques com o governo provisório
controlado pelo Imperador Dom Pedro I, foi estabelecida
a República no Ceará em 26 de agosto de 1824,
tendo Tristão Alencar como presidente do Conselho
que governaria a província. A forte repressão
das forças imperiais, no entanto, derrotaram rapidamente
o movimento rebelde devido a diversos motivos: a superioridade
militar das tropas do governo federal; a pouca participação
popular; as principais lideranças terem sido presas
ou mortas.
Outro conflito que se destacou na história cearense
foi a sedição de Pinto Madeira, um violento
conflito entre a vila do Crato, liderada por liberais republicanos
(com maior destaque para a família Alencar), e a
de Jardim, praticamente dominada por Pinto Madeira, de caráter
absolutista e autoritário. As duas elites locais
disputavam pelo controle político do Cariri cearense.
Por fim, os cratenses contrataram o mercenário francês
Pierre Labatut e, reagindo com um exército formado
por sertanejos humildes, renderam os jardinenses. Pinto
Madeira foi julgado sumariamente no Crato, após ser
considerado culpado pela morte do liberal José Pinto
Cidade.
Também no século XIX, o Ceará sofreu
um verdadeiro boom econômico durante o período
da Guerra de Secessão nos EUA, que, afetando a cotonicultura
norte-americana, abriu o mercado mundial para o algodão
cearense. Foi nesse período que Fortaleza desbancou
Aracati do posto de cidade principal do Ceará: o
algodão substituía o charque em importância
econômica.
No século XIX, um movimento de grande importância
aconteceu no Ceará: a campanha abolicionista, que
aboliu a escravidão no Estado em 25 de março
de 1884, antes da Lei Áurea, que é de 1888.
Foi portanto o primeiro estado brasileiro a abolir a escravatura.
Dentro do Ceará, o primeiro município a abolir
a escravatura foi Acarape, que depois do evento, passou
a ser chamado de Redenção.
Após a proclamação da República
no Brasil, em 1889, o quadro político-econômico
do Ceará começou a se transformar. Alguns
anos depois, teria início a poderosa oligarquia acciolina,
que recebeu esse nome por ser comandada pelo comendador
Antônio Pinto Nogueira Accioli, que governou o estado
de forma autoritária e monolítica entre 1896
e 1912. A situação de desesperadora miséria
e abandono social era uma marca profunda do Ceará
nessa época, o que levou ao surgimento de diversos
movimentos messiânicos ao longo do século XIX
e XX, tendo como líderes religiosos Antônio
Conselheiro (que formaria na Bahia o arraial de Canudos),
Padre Ibiapina, Padre Cícero, Beato Zé Lourenço,
etc. Surgiu também outro meio de escapar da miséria:
o cangaço. Muitos homens formaram grupos de cangaceiros
que saqueavam vilas, assaltavam e amedrontavam a todos.
Século XX (1900-1930)
O século XX, para o Ceará, foi marcado pelos
ciclos de poder dos "coronéis" e por enormes
transformações de ordem social e econômica.
O século se iniciou no contexto da oligarquia acciolina,
comandada, direta ou indiretamente, por Nogueira Accioli
de 1896 a 1912. Durante esse período, a família
Accioli controlou, literalmente, todas as esferas do poder
cearense, desde os altos escalões do Governo estadual
até às delegacias. Tal monolitismo só
acabou graças à chamada sedição
de Fortaleza de 1912. Então se vivia uma conturbada
e violenta campanha eleitoral no Ceará, graças
ao Salvacionismo pretendido pelo presidente Hermes da Fonseca,
que procurava enfraquecer as oligarquias regionais contrárias
ao seu poder. Dentro das política das Salvações,
foi lançada a candidatura de Franco Rabelo para o
governo, enquanto Accioli apontava como seu candidato Domingos
Carneiro. Em Fortaleza, houve uma passeata de crianças
em favor de Franco Rabelo, a qual foi repreendida duramente
pelas forças policiais, causando a morte de algumas
crianças e ferindo outras tantas. Em conseqüência,
a população fortalezense se revoltou contra
o governo, mergulhando a capital em verdadeiro estado de
guerra civil durante três dias. Accioli teve, então,
que renunciar ao governo cearense, tendo como garantia o
direito de permanecer vivo e poder fugir do Estado. Franco
Rabelo foi eleito para governar o Ceará logo em seguida,
mas acabou sendo deposto por outra revolta, a sedição
de Juazeiro, entre 1913 e 1914.
Juazeiro do Norte era uma cidade recém-emancipada
do Crato. Seu surgimento se deveu ao carismático
Padre Cícero, que, após ter ficado famoso
devido ao suposto milagre da Beata Maria de Araújo
(cuja hóstia teria se transformado em sangue), conquistou
uma imensa massa de sertanejos pobres e religiosos. Muitos
passaram a morar em Juazeiro, de modo que em pouco tempo
o local possuía milhares de moradores. Como não
tinha o apoio da alta hierarquia católica, Padre
Cícero procurou evitar que Juazeiro tivesse o mesmo
fim trágico de Canudos e aliou-se ao poder político
dos coronéis, posicionando-se ao lado da oligarquia
de Nogueira Accioli. Embora mantendo a proximidade com o
povo, o padre tornou-se, para alguns, um "coronel de
batinas".
Franco Rabelo havia, em pouco tempo, perdido o apoio de
muitos políticos que o haviam ajudado a chegar ao
poder - a Assembléia Legislativa tentou até
mesmo, sem sucesso, votar o impeachment do "salvacionista".
Os oposicionistas tentaram, então, convocar extraordinariamente
a Assembléia Legislativa em Juazeiro e caçaram
o mandato de Rabelo. Este, que tinha ainda bastante apoio
em Fortaleza, mandou tropas para Juazeiro do Norte, pretendendo
derrotar os golpistas. Os sertanejos, incitados pelo Padre
Cícero e pelos coronéis, acreditaram ser aquela
uma agressão contra o "Padim Ciço".
Iniciou-se um verdadeiro clima de guerra santa em Juazeiro.
Após meses de combate, os seguidores de Padre Cícero
venceram as tropas de Rabelo e iniciaram uma longa marcha
até Fortaleza, obrigando Rabelo a renunciar ao governo
cearense.
Após a sedição de Juazeiro, estabeleceu-se
um certo equilíbrio entre as oligarquias cearenses,
não havendo mais conflitos militares entre elas.
O povo, no entanto, continuou reprimido e sem voz.
Século XX (1930-1945)
A situação política no Ceará
se modificaria bastante com a Revolução de
30, que levou ao poder Getúlio Vargas. Durante 15
anos, governaram o Estado interventores do Governo Federal.
O primeiro interventor no Ceará foi Fernandes Távora,
mas ele governou por pouco tempo, pois continuou com as
práticas clientelistas e corruptas do República
Velha. Os interventores não tardaram a se acomodar
com as elites locais. O quadro político cearense
esteve, nesse período, influenciado por duas associações:
a (Liga Eleitoral Católica (LEC), que, por seus vínculos
religiosos e apoio dos latinfundiários interioranos,
obteve grande penetração no eleitorado cearense
e apoiou segmentos fascistas que organizaram a Ação
Integralista Brasileira (AIB) no Ceará; e a Legião
Cearense do Trabalho (LCT), organização operária
conservadora, corporativista, anticomunista e antiliberal
(na prática, fascista) que existiu no Ceará
entre 1931 e 1937. A LCT, após o exílio de
seu líder Severino Sombra por ter apoiado a Revolução
Constitucionalista de São Paulo em 1932, foi perdendo
poder. Ao voltar do exílio, Sombra abandonou a LCT
e fundou a Campanha Legionária, mas não teve
sucesso, pois a Igreja prestava agora apoio à AIB
e começavam a surgir entidades operárias de
esquerda no Estado. Em 1937, por fim, todas as associações
de orientação fascista (LCT, AIB e Campanha
Legionária) foram extintas pelo Estado Novo de Getúlio
Vargas.
Um importante movimento social no período varguista
foi o Caldeirão. De forma semelhante a Canudos, ele
reuniu cerca de 3 mil pessoas sob a liderança do
beato Zé Lourenço, paraibano que chegara a
Juazeiro por volta de 1890 e era seguidor de Padre Cícero.
Aconselhado por Padre Cícero a se estabelecer na
região e trabalhar com algumas das famílias
de romeiros, arrendou um lote de terra no sítio Baixa
Danta, em Juazeiro do Norte. O sítio prosperou e
começou a desagradar a parte da elite, sendo difamado
pelos adversários políticos de Padre Cícero.
Isso culminou na exigência do dono do sítio
Baixa Danta de que os camponeses e o beato deixassem a terra.
Instalando-se no sítio Caldeirão, no Crato,
propriedade de Padre Cícero, os camponeses formaram
uma pequena sociedade coletiva e igualitária, prosperando
tanto que chegaram a vender os excedentes nas cidades vizinhas.
O sítio tornou-se, portanto, um "mau exemplo"
para os sertanejos e desagradou fortemente à Igreja
e aos latifundiários que perdiam a mão-de-obra
barata. As difamações culminaram com a acusação
de que o beato Zé Lourenço era agente bolchevique!
Quando Padre Cícero morreu, em 1934, as terras foram
herdadas pelos padres salesianos, e os camponeses do Caldeirão
ficaram desamparados. Em setembro de 1936, a comunidade
é dispersa e o sítio é incendiado e
bombardeado. Zé Lourenço e seus seguidores
rumaram, então, para uma nova comunidade. Alguns
dos moradores, no entanto, resolveu se vingar e realizaram
uma emboscada, matando alguns policiais, o que foi respondido
com um verdadeiro massacre de camponeses pelos contingentes
policiais (estima-se entre 300 e 1000 mortos).
O início dos anos 40, no Ceará, foi influenciado
pela Segunda Guerra Mundial. Em Fortaleza, foi montada uma
base norte-americana, mudando os hábitos locais e
empolgando a população, que passou a realizar
diversos atos, manifestos e passeatas contra o nazismo.
Ao mesmo tempo, uma forte propaganda governamental estimulava
os sertanejos a migrar para a Amazônia, onde formariam
o "Exército da Borracha", isto é,
explorariam o látex das seringueiras. Milhares de
cearenses migraram para o Norte, muitos dos quais morreram.
Porém, estas mortes não foram em vão,
já que somente graças aos soldados da borracha
e vossa mais-valia é que os Estados Unidos e Aliados
puderam vencer os nazistas sem os seringais da Ásia
para abastece-los, tal como o Centro-sul do Brasil pôde
enxergar algo além das infinentésimas plantations
de café(pois a vitória aliada gerou grandes
dividendos financeiros para a construção da
CSN no vale do Paraíba do Sul e base de toda a industrialização
nacional).
A luta contra o nazismo e o posicionamento contraditório
do governo brasileiro (uma ditadura de base fascista dentro
do País lutando contra regimes autoritários
fascistas no exterior) precipitaram a derrocada do Estado
Novo. Formaram-se os diversos partidos novos, como a UDN,
o PSD, o PCB e o PSP. A UDN e o PSD, partidos conservadores
e elitistas, dominariam o cenário político
cearense pelas próximas décadas, enquanto
o PSP, chefiado por Olavo Oliveira, seria, ao menos nos
anos 50, o "fiel da balança" nas disputas
eleitorais. O primeiro governador após a redemocratização
foi Faustino Albuquerque, da UDN. Vale lembrar que, apesar
de todas as transformações políticas,
o Ceará era então um dos locais mais miseráveis
do Brasil.
Literatura popular cearense
No Ceará, a Literatura de cordel desenvolveu-se expressivamente
em Juazeiro do Norte, desde as primeiras décadas do
século passado. Em Fortaleza, a Literatura de Cordel
surgiu no período da Oligarquia de Nogueira Acioly,
peródo em que circularam alguns folhetos destratando
a figura do Govenrnado Cearense. Nesta mesma época,
atuava também em Fortaleza o poeta-editor Potiguar
Luiz da Costa Pinheiro, autor do clássico “O
Boi Mandingueiro e o Cavalo Misterioso”.
O poeta alagoano José Bernardo da Silva, fixou-se
em Juazeiro do Norte, e fundou na década de 40 a
Tipografia São Francisco, responsável, até
o início da década de 80, por quase toda a
produção de folhetos vendidos no Ceará
e demais Estados nordestinos.