A cidade foi fundada pelos portugueses em 1537 e permaneceu
portuguesa até a independência do Brasil, com
a exceção de um período de ocupação
holandesa no Século XVII, entre 1630 e 1654, a maior
parte do tempo sob o governo de Maurício de Nassau
('Mauritsstad'). A aldeia foi elevada a vila e conselho
com o nome de Santo Antônio das Cacimbas do Recife
do Porto em 1709, e tornou-se cidade em 1823. Durante os
anos anteriores à invasão da Companhia das
Índias Ocidentais, o povoado do Recife existiuu apenas
em função do porto e à sombra da sede
Olinda, local que a aristocracia escolheu para residir devido
à sua localização previamente fortificada,
segundo a concepção portuguesa. Por isso mesmo,
ergueram-se fortificações e paliçadas
em defesa do povoado e do porto do Recife, todas elas voltadas
para o mar. Conclui-se, dessa forma, que os nativos não
representavam ameaça maior aos colonos. Os temores
voltavam-se para o oceano por conta dos constantes ataques
ao litoral da América Portuguesa pela navegação
de corso e pirataria. Ainda no final do século XVI
o "povo dos arrecifes" foi atacado e saqueado
pelo pirata inglês James Lancaster, que, com três
navios, derrota a pequena guarnição responsável
pela defesa do porto, a qual contava com apenas sete peças
de artilharia forjadas em bronze. Entre os anos de 1520
e 1526 o então governador Matias de Albuquerque procura
estabelecer posições fortificadas no porto
do Recife a fim de que se pudesse evitar outro ataque como
aquele, bem como dissuadir a Companhia das Índias
Ocidentais da idéia empreendida na Bahia em 1524.
Governo Holandês - Mauritsstad
Mauritsstad, Mauritiópolis ou 'Mauricéia foi
a capital do Brasil holandês e fica onde hoje é
a cidade do Recife, e foi governada na maior parte do tempo
pelo conde alemão (a serviço da Coroa dos
Países Baixos) Maurício de Nassau (em alemão
Johann Moritz von Nassau-Siegen; em neerlandês Johan
Maurits van Nassau-Siegen). Foi a maior metrópole
da América do Sul no século XVII, e durante
o governo nassoviano contou com a segunda melhor malha viária
das Américas, perdendo apenas para a Filadélfia.
Recife, a Mauritstaad
Vista da Cidade Maurícia (Recife) Gravura em água
forte, 38 x 50 cm, de Pieter Schenck, baseada em desenho
de Frans Post, 1645, para o livro Rerum in Brasilia et alibi
gestarum de Caspar Barlaeus. Acervo do Museu Nacional de
Belas Artes. Rio de Janeiro.Desembarcando na Nieuw Holland,
a Nova Holanda (o Nordeste do Brasil) acompanhado com uma
equipe de arquitetos e engenheiros, o conde foi fundo na
construção da Mauristaad, a cidade Maurícia.
Célebres por aplacar as tiranias do Mar do Norte,
os técnicos de Nassau, "arquitetos da cultura",
devem ter achado bem mais fácil domar os desatinos
do rio Capibaribe e secar os mangues e os pântanos
circunvizinhos à minúscula Recife de então.
Foi deles o projeto de dotar a cidade de pontes, diques
e canais que permitiram-na defender-se das águas
desordeiras que a cercavam.
A intenção dele era fazê-la
estupenda, a capital do império holandês das
Américas (composto então por uma cadeia de
fortalezas que iam do Forte Schoonenburg, no Ceará,
até o Forte Maurits, na embocadura do rio São
Francisco, ao sul de Alagoas, uns 1500 km mais ao sul).
E isso sem mencionar os seus domínios africanos que
englobavam uma série de feitorias na Guiné
e Angola situadas no outro lado do Atlântico. Controlando
diretamente o açúcar simultaneamente às
bocas do tráfico negreiro, o "ouro doce"
ficava inteiramente nas mãos da WIC (West Indische
Compagnie), a grande empresa holandesa daqueles tempos,
a quem ele representava como General-governeur (de 1637
a 1644).
Tolerância e curiosidade
Enquanto na Europa monarcas católicos
e protestantes se enfezavam na terrível Guerra dos
Trinta Anos ( 1618-1648), João Maurício, principe
partidário da tolerância, criou em Pernambuco
o único espaço em que, de veras, se permitiu
a liberdade religiosa, autorizando o funcionamento das igrejas
católicas e da sinagoga judaica ( aberta em 1642,
a primeira da América do Sul), num raro convívio
harmônico com os templos calvinistas.
De fato, ele não era apenas um narcisista.
Era um humanista renascentista, um entusiasta da ciência
e das belas artes. Ao embarcar para o Brasil, em outubro
de 1636, na frota não vieram apenas soldados, mas
por igual, seguindo as pegadas de Alexandre o Grande na
Ásia, trouxe uma plêiade de naturalistas e
pintores. Com eles fazia suas caminhadas pelo litoral e
pelo sertão de Pernambuco para satisfazer sua imensa
curiosidade pelo país recém conquistado.
Enquanto Frans Post e Albert Eckhout imprimiam
em telas memoráveis as paisagens e os "exóticos"
habitantes da província açucareira, usando
na composição delas o que havia de melhor
e mais avançado entre os equipamentos de observação
da época ( são os únicos testemunhos
pictóricos do Brasil do século XVII), dois
outros homens de ciência, o médico Willem Piso
e o naturalista alemão Georges Marggraf, lançaram-se
no estudo da farmacopéia local, das doenças
tropicais, da fauna e da flora de um modo geral. Enquanto
isso, o arquiteto Piter Post, irmão de Frans, erguia
à sombra da floresta, o estupendo palácio
de Freeburg, sede do poder de Nassau na Nova Holanda e também
o prédio do observatório astronômico,
tido como o primeiro do Novo Mundo.
Pharnambuci - Ilustração do estado PernambucoNa
galeria de arte
Anos depois, já de volta à
Holanda, o dr. Piso publicaria a monumental História
Naturalis Brasiliae, em 1648. Obra que, mais tarde, inspirou
as atividades dos naturalistas Alexander von Humbold e Geoffrey
Saint-Hilaire. A expedição cientifica de Nassau,
que encerrou-se com a volta dele para a Holanda em 1644,
depois dele ter-se desentendido com a Companhia, foi a única
que o Brasil até então conhecera. Organizou
então um livro que registrasse os seus profícuos
anos que passou no Brasil, contando para tanto com a colaboração
de Gaspar Barléu, autor da "Rerum per octenium
in Brasilia..." editado em 1647. Outra expedição
científica de igual importância somente deu-se
com a chegada da Missão Francesa, em 1819, nos tempos
de D. João VI, 175 anos depois!
Residindo por fim em Haia, João
Maurício, que no seu diário deixou páginas
de embevecimento com os anos estimulantes e produtivos que
passou no Brasil, tornou a sede do Stadhouder, o palácio
do governo holandês, no Mauritshuis, uma galeria de
arte. Conviveu lá com as obras-primas de Vermeer,
de Rembrandt, de Frans Hals, e de tantos outros gênios
seus contemporâneos. Há pouco, no 17 de junho
passado, três cidades celebraram os 400 anos do nascimento
dele, ocorrido em 1604: Dillenburg, na Alemanha, sua cidade
natal; Recife, no Brasil, que ele transformou; e Haia, na
Holanda, onde ele administrou. Para muitos, que denominaram
a administração Nassau como "parênteses
luminoso", foi um dos poucos governos sérios
que o Brasil teve nos seus três séculos de
colônia dos europeus.
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