Atraído pelas riquezas das Minas Gerais e pela serra
das Congonhas, o bandeirante João Leite da Silva
Ortiz fundou, em 1701, o Curral del Rey, hoje Belo Horizonte.
Em 1711, por carta de sesmaria concedida pelo governador
Antonio Albuquerque Coelho de Carvalho, Ortiz fundou a fazenda
do Cercado, começando ao pé da serra das Congonhas,
hoje serra do Curral, indo até a Lagoinha. O nome
Curral del Rey deve-se a um curral onde se reunia o gado
que iria pagar as taxas ao rei. Ortiz optou aqui pelo plantio
de rocas, criação e negociação
de gado, alem de trabalhos de engenho. Aventurou-se também
na faisqueira nos córregos auríferos da região,
utilizando-se da mão-de-obra do grande contingente
de escravos que possuía. Suas atividades foram atraindo
outros povoadores, e a região foi se expandindo e
consolidando-se enquanto povoado. Logo começaram
a surgir algumas cafuas e, entre elas, ergueu-se a capela
dedicada a Nossa Senhora da Boa Viagem. Em 1780, Curral
del Rey, ja um povoado bastante populoso, e elevado por
carta regia a freguesia. No ano de 1891, Augusto José
de Lima, nomeado governador provisório de Minas,
defende a necessidade de mudar-se a capital. Investido da
autoridade que lhe conferia o cargo, lavra o decreto de
mudança da capital de Ouro Preto para Belo Horizonte,
através da portaria no. 22, de 22 de abril de 1891,
manda desenvolver estudos para a escolha do local onde se
instalaria a nova capital. Em 1892, ja empossado novo governador
de Minas, Afonso Augusto de Moreira Lima, em seu primeiro
ato administrativo, nomeia o engenheiro Aarão Reis
para organizar e dirigir a comissão de estudos das
localidades indicadas para a transferencia da capital. Terminado
tal estudo, as discussões sucedem-se, prevalecendo
como vencedores os adeptos da localidade de Belo Horizonte.
A Lei no..3, de 17.12.1893, aprova o plano da nova capital
de Minas, e o engenheiro Aarão Reis e nomeado presidente
da comissão da Construção da Nova Capital.
Permanece a frente da comissão de fevereiro de 1894
a maio de 1895, quando é substituído pelo
engenheiro Francisco de Paula Bicalho, que dá prosseguimento
aos planos idealizados por seu antecessor. A concepção
urbanística de Aarão Reis era moderna e dava
ênfase ao aspecto da salubridade e visibilidade no
Projeto da cidade, alem de atender aos anseios da época
de uma sociedade baseada nos ideais da Republica que se
instalara. A planta de Belo Horizonte, concebida por Aarão
Reis e sua equipe, tinha o setor urbano separado do suburbano
pela avenida do Contorno. Queria ele que a cidade, logo
que tivesse o centro ocupado, fosse expandindo-se para a
periferia e que da periferia viessem todos ao comercio e
ao lazer, na área central. A historia vai nos mostrar
que, na realidade, o que se deu foi exatamente o contrario:
a área suburbana foi ocupada primeiramente e o centro,
por longo tempo, teve grandes vazios. A planta original
de Aarão Reis, respeitada por seu sucessor, destaca-se
por avenidas largas de 35m de larguras, excetuando-se a
Afonso Pena, que tem 50m de largura, ruas na zona urbana
com 20m de largura e nas zonas suburbanas, com 14m de largura.
Vale ressaltar que, apesar de constar do estudo, a área
externa a Contorno não mereceu qualquer tipo de tratamento
a época da inauguração da cidade. A
instalação da capital mineira em Belo Horizonte
dá-se no dia 12 de dezembro de 1897, de acordo com
o decreto no. 1085, pelo então presidente Chrispim
Jacques Bias Fortes, que deu seqüência aos desejos
do ex-governador Afonso Pena no tocante as obras da nova
capital. Em 28 de dezembro de 1897, foi criada a prefeitura
municipal e nomeado o seu primeiro prefeito, o Dr. Adalberto
Dias Ferraz da Luz. Concomitantemente, desfaz-se a comissão
construtora, passando a responsabilidade das obras da nova
capital para a prefeitura. Em 1901, a cidade de Minas passa
definitivamente a chamar-se Belo Horizonte. Criada para
ser sede administrativa, não foi apenas a cidade
do funcionalismo publico estadual; foi, sim, a formadora
de um novo modo de vida moderno. Abrigou a industria e também
o industriário, o comerciante e o comerciário.
Neste belo cenário entre montanhas, Belo Horizonte
cresceu e virou uma bela e grande metrópole. Em seu
crescimento, contou com a colaboração das
pessoas da terra, mas também de além-mar.
Neste particular, a colônia italiana foi de vital
importância na construção da cidade.
Um arraial pacato, de gente ordeira e cortês
Foi à procura de ouro que, no distante 1701, o bandeirante
João Leite da Silva Ortiz chegou à serra de
Congonhas. Em lugar do metal, encontrou uma bela paisagem,
de clima ameno e próprio para a agricultura. Resolveu
ficar: construiu a Fazenda do Cercado, onde desenvolveu
uma pequena plantação e criou gado.
O progresso da fazenda logo atraiu outros moradores e um
arraial começou a se formar em seu redor. Viajantes
que por ali passavam, conduzindo o gado da Bahia em direção
às minas, fizeram da região um ponto de parada.
O povoado foi batizado de Curral del Rei. Da serra de Congonhas
mudou-se o antigo nome: é hoje a nossa Serra do Curral.
Nossa Senhora da Boa Viagem, a quem os forasteiros pediam
proteção, tornou-se padroeira do local.
Aos poucos, o Curral del Rei foi crescendo, apoiado na pequena
lavoura, na criação e comercialização
de gado e na fabricação de farinha. Algumas
poucas fábricas, ainda primitivas, instalaram-se
pela região: produzia-se algodão, fundia-se
ferro e bronze. Das pedreiras, extraía-se granito
e calcário. Frutas e madeiras eram vendidas para
outros locais.
Com a decadência da mineração, o arraial
se expandiu. Das 30 ou 40 famílias existentes no
início, saltou para a marca de 18 mil habitantes.
Elevado à condição de Freguesia, mas
ainda subordinado a Sabará, o Curral del Rei englobava
as regiões de Sete Lagoas, Contagem, Santa Quitéria
(Esmeraldas), Buritis, Capela Nova do Betim, Piedade do
Paraopeba, Brumado Itatiaiuçu, Morro de Mateus Leme,
Neves, Aranha e Rio Manso. Vieram as primeiras escolas,
o comércio se desenvolveu. No centro do arraial,
os devotos ergueram a Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Esse ciclo de prosperidade, contudo, durou pouco. AS diversas
regiões que constituíram o arraial foram se
tornando autônomas, separando-se dele. A população
rapidamente diminuiu e a economia local entrou em decadência.
Já no final do século passado, restavam mais
de 4 mil habitantes. Sua rotina era simples e monótona.
Começava cedo, no trabalho de casa ou na lavoura,
e terminava às dezenove horas, quando muitos já
começavam a se recolher. Durante o dia, a Farmácia
Abreu era o ponto de encontro preferido para o bate-papo.
à noite, as mulheres faziam novenas, enquanto os
homens improvisavam um botequim no Armazém Esperança.
De vez em quando, uma serenata fazia as janelas se abrirem.
Apenas nos fins-de-semana o arraial ganhava vida, quando
os moradores das redondezas vinham ouvir a missa ou visitar
parentes e fazer compras. Em datas especiais, o arraial
tornava-se mais alegre: nas Festas Juninas, no Natal ou
no Dia da Padroeira os festejos eram certos.
A Proclamação da República, em 1889,
vem trazer aos curralenses a esperança de transformações.
Para entrar na era que então se anunciava, deixando
para trás o passado monárquico, aos sócios
do Clube Republicano do arraial propuseram a mudança
de seu nome para Belo Horizonte. Foi nesse clima de euforia
que os horizontinos receberam a notícia da nova construção
da nova capital. Durante três dias o arraial se pôs
em festa, com missa solene, discursos, bandas de música
e bailes. Seus habitantes já sonhavam com modernização
e o progresso que a capital traria para a região.
Nem imaginavam que, nos planos dos construtores, não
havia espaço reservado para eles.
A luta pela mudança
A discussão sobre a mudança da capital mineira
não surgiu no século passado; era, ao contrário,
uma idéia muito antiga. A primeira tentativa de transferir
a sede do Governo para uma cidade diferente de Ouro Preto
data de 1879, quando os inconfidentes planejaram instalar
a capital de sua república em São João
Del Rei. Depois disso, mais quatro tentativas foram feitas,
todas fracassadas. A questão só veio a ser
considerada após a Proclamação da República.
Só que dessa vez, não se trava de uma simples
transferência, mas a construção de uma
nova cidade.
Uma série de fatores favorecia a idéia de
mudança. EM primeiro lugar, para se destacar o novo
cenário republicano, Minas Gerais precisava mostrar-se
politicamente unida e forte. A construção
de uma nova capital, localizada no centro geográfico
do Estado, poderia facilitar o equilíbrio das diversas
facções políticas que então
disputavam o poder.
Os republicanos também desejavam promover o progresso
de Minas Gerias, tornando-o um Estado industrializado e
moderno. A cidade de Ouro Preto não oferecia condições
adequadas para o crescimento econômico esperado. Os
transportes e as comunicações eram dificultados
pelo relevo acidentado da cidade e as estruturas de saneamento
e higiene não comportavam mais um aumento da população.
A construção de uma nova capital, planejada
de acordo com essas exigências era a solução
para o problema do crescimento.
Um outro fator contribuiu para fortalecer a idéia
de mudança. Ouro Preto, cidade histórica,
guardava em sua arquitetura uma série de símbolos
e marcas do passado colonial que os republicanos queriam
enterrar. com suas ruelas e becos, suas igrejas barrocas
e suas casas, porões e senzalas, a velha capital
lembrava os anos da dominação portuguesa,
das conspirações e da escravidão. Uma
nova cidade, planejada segundo os valores modernos, seria
o símbolo de uma nova era.
Em 1891, o presidente do Estado, Augusto de Lima, formulou
um decreto determinando a transferência da capital
para um lugar que oferecesse condições precisas
de higiene. Adicionada à Constituição
Estadual, a lei provocou muitos protestos da população
ouropretana. Os mineiros dividiram-se entre os "mudancistas",
favoráveis à nova capital, e os "não-mudancistas".
Cada um desses grupos fundou seu jornal, promovendo reuniões
e debates.
O Governo Estadual, enfrentando essas disputas, criou um
Comissão de Estudos para indicar, dentre cinco localidades,
a mais adequada para a construção da nova
cidade. O Congresso mineiro, a quem cabia a decisão
final, votou a favor de Belo Horizonte. Assim, a 17 de dezembro
de 1893, a lei n.º 3 foi adicionada à Constituição
Estadual, determinando que a nova sede do Governo fosse
erguida em Belo Horizonte, chamando-se Cidade de Minas.
No prazo máximo de quatro anos, a capital deveria
ser inaugurada. A lei criava ainda a Comissão Construtora,
composta de técnicos responsáveis pelo planejamento
e execução das obras. Em sua formação,
estavam alguns dos melhores engenheiros e arquitetos do
país, chefiados por Aarão Reis.
O traçado da Cidade e a exclusão social
Uma cidade ordenada, funcionando como um organismo saudável
– esse era o objetivo dos engenheiros e técnicos
que idealizaram Belo Horizonte. Para alcançá-lo,
era necessário projetar um cidade física e
socialmente higiênica – uma cidade saneada,
livre de doenças, mas também livre de desordens
e revoluções.
O projeto criado pela Comissão Construtora, finalizado
em maio de 1895, inspirava-se no modelo das mais modernas
cidades do mundo, como Paris e Washington. Os planos revelavam
algumas preocupações básicas, como
as condições de higiene e circulação
humana. Dividiram a cidade em três principais zonas:
a área central urbana, a área suburbana e
a área rural.
No centro, o traçado geométrico e regular
estabelecia um padrão de ruas retas, formando uma
espécie de quadriculado, Mas largas, as avenidas
seriam dispostas em sentido diagonal. Esta área receberia
toda a estrutura urbana de transportes, educação,
saneamento e assistência médica. Abrigaria,
também, os edifícios públicos dos funcionários
estaduais. Ali também deveriam se instalar os estabelecimentos
comerciais. Seu limite era a Avenida do Contorno, que naquela
época se chamava de 17 de Dezembro.
A região suburbana, formada por ruas irregulares,
deveria ser ocupada mais tarde e não recebeu de imediato
a infra-estrutura urbana. A área rural seria composta
por cinco colônias agrícolas com inúmeras
chácaras e funcionaria como um cinturão verde,
abastecendo a cidade com produtos hortigranjeiros.
A implantação de tão grandioso projeto
tinha, porém, uma exigência: a completa destruição
do arraial que ali se localizava e a transferência
de seus antigos habitantes para outro local. Rapidamente,
os horizontinos tiveram suas casas desapropriadas e demolidas,
sendo-lhes oferecidos novos imóveis a um preço
muito alto. Sem condições de adquirir os valorizados
terrenos da área central, eles foram empurrados para
fora da cidade, indo se refugiar em Venda Nova ou em cafuas
na periferia.
A capital traçada pela Comissão Construtora
era um lugar elitista. Seus espaços estavam reservados
somente aos funcionários do Governo e aos que tinham
posses para adquirir lotes. Acreditava-se que os problemas
sociais, como a pobreza, seriam evitados com a retirada
dos operários, assim que a construção
da cidade estivesse concluída. Mas, na prática,
não foi isso que aconteceu. Belo Horizonte foi inaugurada
às pressas, estando ainda inacabada. Os operários,
aglomerados em meio às obras, não foram retirados
e, sem lugar para ficar, assim como os horizontinos, formaram
favelas na periferia da cidade. A primeira, a do Leitão
- ficava nas proximidades do atual Instituto de Educação,
em plena Avenida Afonso Pena. Essa massa de trabalhadores
que não eram considerados cidadãos legítimos
de Belo Horizonte revelava o grau de injustiça social
existente nos seus primeiros anos de vida.
A cidade do tédio
Belo Horizonte foi inaugurada a 12 de dezembro de 1897,
por uma exigência da Constituição do
Estado. Entretanto, parte de suas construções
não havia sido concluída e algumas de suas
ruas e avenidas eram apenas "picadas" abertas
no meio do mato. A crise econômica que tomava conta
do país e do Estado tinha feito com que muitas obras
ficassem paralisadas, à espera de recursos. O comércio
e a indústria ligada à construção
civil, que tinham se desenvolvido bastante nos anos anteriores,
agora enfrentavam dificuldades. A cidade não se industrializou
no ritmo que se esperava e permaneceu sem atividades econômicas
expressiva durante anos. Os trabalhadores foram os mais
prejudicados – os que não perderam o emprego
tiveram seus salários atrasados durante meses.
Tudo isso contribuía para tornar a Capital uma cidade
entediante e sem graça. Sua aparência inacabada
e empoeirada dava a impressão de abandono. As ruas
e avenidas – largas demais para uma população
não muito numerosa – pareciam estar sempre
vazias. Para piorar a situação, as diversões
eram poucas e não conseguiam espantar a decepção
e a tristeza dos primeiros habitantes.
Na área central, a Rua da Bahia era território
de elite. Nela, ficava o único teatro da cidade –
o Soucasseaux, uma espécie de um barracão
coberto de zinco, onde se apresentavam companhias de teatro
e música e onde se improvisava um botequim. Nessa
rua também ficavam os principais bares e cafés,
lugar onde os homens se encontravam para conversar, falar
de política e da vida. Ao anoitecer, a rua virava
palco para o footing (moças e rapazes desfilavam,
trocando olhares, numa espécie de namoro bem comportado).
Na tentativa de espantar o tédio, os jovens fundavam
clubes como o Rose, o Violetas, o dos Jardineiros do Ideal,
o Santa Rita Durão e o Elite. Além de festas
e bailes, esses Grêmios tinham a intenção
de promover a literatura. Outros clubes eram criados durante
os carnavais e os mais famosos foram os Matakins, os Diabos
de Luneta e os Diabos de Casaca, que promoviam festas, desfiles
de carros alegóricos, batalhas de confetes, serpentinas
e, é claro, lança-perfume.
O Parque Municipal (na época quatro vezes maior)
era muito freqüentado nos fins-de-semana. Ali, a sociedade
encontrava espaço para praticar esportes, passear
ou fazer piqueniques, enquanto bandas tocavam "retretas".
Também era lá que as paróquias comemoravam
datas religiosas, com quermesses e barraquinhas.
A população pobre e os operários, contudo,
não tinham acesso a essas formas de lazer. Preferiam
os botequins nos bairros, os jogos de bola e a tômbola,
uma espécie de bingo onde os prêmios não
valem dinheiro. É que eles viviam em locais distantes
do centro e sua condição financeira os impedia
de participar das diversões pagas. Além disso,
na área central eles eram alvo fácil da polícia,
que, por causa de um simples passeio, podia prendê-los,
alegando "vadiagem".
Progresso em marcha lenta
Nas duas primeiras décadas deste século, Belo
Horizonte viveu, alternadamente, períodos de grande
crise e surtos de desenvolvimento. As fases de maior crescimento
corresponderam aos anos de 1905, 1912-13 e 1917-19. Aos
poucos, pequenas fábricas começaram a funcionar
na cidade, ampliou-se o fornecimento de energia elétrica,
retomaram-se as obras inacabadas, expandiram-se as linhas
de bonde, criaram-se praças e jardins e a cidade
ganhou arborização. O número de empregos
cresceu e a Capital passou a atrair mais habitantes.
A vida social também começou a se agitar,
com a substituição do teatrinho Soucasseaux
pelo elegante Teatro Municipal (1909) e com a inauguração
de diversos cinemas. Freqüentar as salas dos cine-teatros
Colosso, Comércio, Familiar, Progresso, Bijou e Paris
tornou-se não só uma obrigação
para os belo-horizontinos, como também um pretexto
para encontros e conversas. Nessa época em que cinema
fazia muito sucesso, nasceu o gosto do belo-horizontino
pela moda, com famosas costureiras imitando os modelos vestidos
pelas atrizes mais conhecidas.
Foi também com o crescimento da cidade que a massa
de trabalhadores começou a lutar contra as injustiças
sociais. A primeira grande greve ocorreu em 1912 e paralisou
a cidade por 15 dias. Liderado por trabalhadores da construção
civil, que defendiam uma jornada de trabalho de oito horas,
o movimento teve apoio de grande parte da população.
Mobilizando-se através de greves, os operários
conseguiram ser reconhecidos como cidadãos, com direito
a reivindicar melhores condições de trabalho,
educação, transporte, saúde e moradia.
A poesia toma conta da cidade
Os anos vinte marcam uma época romântica da
história da capital. Entre passeios de bonde e sessões
de cinema, entre conversas nos cafés e o footing,
a vida seguia alegre. Belo Horizonte era a "Cidade-Jardim"
ou "Cidade Vergel", onde o verde das árvores
saltava das ruas e invadia as casas, tomando quintais e
pomares.
Nesse período, a capital viu nascer a geração
de escritores modernistas que iria se destacar no cenário
nacional. Carlos Drumond de Andrade, Cyro dos Anjos, Luís
Vaz, Alberto Campos, Pedro Nava, Emílio Moura, Milton
Campos, João Alphonsus, Abgar Renault e Belmiro Braga,
reunidos no Bar do Ponto, no Trianon ou na Confeitaria Estrela,
eram rapazes inquietos que mudaram o panorama da literatura
brasileira.
No campo das artes e da cultura, a cidade experimentou um
grande desenvolvimento. Enquanto o Teatro Municipal vivia
seus anos de glória, novas salas de cinema eram inauguradas
como os cines Pathê, Glória, Odeon e Avenida.
Em 1926, o maestro Francisco Nunes fundou o Conservatório
Mineiro de Música. No ano seguinte, era criada a
Universidade de Minas Gerais. Em 1929, fundou-se Automóvel
Clube, ponto de encontro da elite belo-horizontina.
Como um reflexo do fim da I Guerra Mundial, em 1918, a indústria
de Belo Horizonte ganhou impulso na década de vinte.
Os serviços urbanos foram ampliados para atender
a uma população sempre crescente. Parecia,
finalmente, que a modernidade tinha chegado à Capital.
Inauguraram-se grandes obra, como o viaduto de Santa Tereza,
a nova Matriz da Boa Viagem e o Mercado Municipal. Os automóveis
circulando pelas ruas tornaram-se comuns, exigindo a criação
de um código de trânsito e da primeira auto-escola.
Surgiram também os auto-ônibus, complementando
p serviço dos bondes.
Como prova do desenvolvimento e do prestígio, Belo
Horizonte recebeu a visita dos reis da Bélgica, em
1920. Na ocasião, toda a Praça da Liberdade
foi reformulada, adquirindo o seu aspecto atual. Em 1922,
para comemorar os cem anos da Independência Brasileira,
a Praça 12 de Outubro passou a se chamar Praça
Sete de Setembro e ganhou o famoso "Pirulito",
Essa onda de progresso continuou ao longo da década
de 30. Na periferia, surgiram novos bairros. Cresceram nessa
época Lourdes, Barreiro, Nova Suíça,
Gameleira, Renascença, Sagrada Família e Parque
Riachuelo. Muitas favelas também começaram
a se formar. A expansão da cidade aconteceu sem um
maior controle ou planejamento e isso trouxe sérios
problemas urbanos. Muitos dos novos bairros não possuíam
os serviços básicos de água, luz e
esgotos. Enquanto isso, o centro permanecia relativamente
vazio. Na arquitetura, surgiram novidades: o primeiro edifício
de dez andares e um novo estilo de fachadas, como a do Cine
Brasil.
A Revolução de 3 de outubro de 1930, que levou
Getúlio Vargas ao poder, também marcou a história
da cidade. Tomada de surpresa, a população
assistiu à troca de tiros entre revolucionários
e as forças federais, no cerco ao Quartel do 12º
RI. Nos anos seguintes, a ditadura do Estado Novo traria
o fechamento do Poder Legislativo, o controle da imprensa
e o clima tenso da repressão. Como conseqüência
da política de modernização da economia
implantada por Vargas, as bases para o desenvolvimento industrial
da cidade foram lançadas, criando-se a zona industrial
de Belo Horizonte.
Dois acontecimentos importantes na década foram o
2º Congresso Eucarístico Nacional, em 1936,
que reuniu milhares de católicos na Praça
Raul Soares, e a Exposição de Arte Moderna,
no mesmo ano. O período viu, ainda, nascerem as duas
primeiras rádios da cidade – a Rádio
Mineira (1931) e a Rádio Inconfidência (1936).
Com seus programas de auditório, transmitidos ao
vivo, elas viveriam seus anos dourados na década
seguinte. A capital começava a amadurecer.
Nasce uma moderna metrópole
Os anos quarenta trazem a modernidade e dão um ar
de metrópole à Belo Horizonte. Nessa época,
a capital ganhou várias indústrias, abandonando
seu perfil de cidade administrativa. O impulso para isso
foi dado pela criação de um Parque Industrial,
em 1941. O setor de serviços também começou
a crescer com o fortalecimento do comércio. O centro
da cidade tornou-se, então, uma área valorizada,
principalmente para a construção de edifícios,
e passou a sofrer a especulação imobiliária.
O grande responsável pela transformação
de Belo Horizonte foi o prefeito Juscelino Kubitschek. Com
o objetivo de renovar a capital, promovendo um surto de
desenvolvimento e modernização, JK realizou
diversas obras que projetaram internacionalmente o nome
da cidade.
A mais importante delas foi o Complexo Arquitetônico
da Pampulha inaugurado em 1943. Desenhado pelo jovem arquiteto
Oscar Niemeyer, o complexo era formado por quatro obras
principais – a Igreja de São Francisco de Assis,
a Casa do Baile, o Cassino e o Iate Golf Clube – instaladas
às margens da lagoa artificial. Com suas linhas originais
e modernas, Oscar Niemeyer fez da Pampulha um dos maiores
exemplos da arquitetura modernista brasileira.
Também foi uma iniciativa de Juscelino Kubitschek,
a construção de um conjunto habitacional no
bairro São Cristóvão, localizado na
Avenida Antônio Carlos, que, na época se chamava
Avenida Pampulha. O Conjunto IAPI (Instituto de Aposentadorias
e Pensões dos Industriários), como foi denominado,
surgiu como uma alternativa para o problema da moradia na
cidade e como uma tentativa da Prefeitura de ordenar a região
da Lagoinha. Em 1941, também com projeto de Oscar
Niemeyer, o Palácio da Artes começou a ser
construído.
Um pouco mais tarde, já no final da década,
um outro marco na arquitetura da capital seria inaugurado:
o Edifício Acaiaca, na Avenida Afonso Pena. Com sua
fachada de linhas retas e sóbrias, onde se destacavam
as faces de dois índios, o Acaiaca era o maior e
mais moderno prédio de Belo Horizonte, com os elevadores
mais velozes da cidade. Nessa época, ainda aconteceu
a construção do Teatro Francisco Nunes (1949),
no Parque Municipal, e da primeira estação
rodoviária da cidade.
Se a marca dos anos 40 foi a modernização
da arquitetura da cidade, os anos 50 ficariam conhecidos
como a década da indústria, em razão
do surto de desenvolvimento alcançado pela capital.
A criação da Cemig, em 1952, e o desenvolvimento
da Cidade Industrial, nas proximidades de Belo Horizonte
(Contagem) são dois fatores que explicam esse crescimento.
Nessa década, caracterizada pelo grande êxodo
rural, a população da cidade dobra de tamanho,
passando de 350 mil para 700 mil habitantes. Surgem novos
bairros, como o Sion e o São Pedro. Uma nova avenida
é aberta, sendo chamada de Cristiano Machado. Os
problemas urbanos e a falta de moradia tornam-se mais graves.
Preocupado com o crescimento desordenado da cidade, o prefeito
Américo René Gianetti dá início
à elaboração de um Plano Diretor para
Belo Horizonte.
A cidade torna-se vertical com uma série de prédios
– cada vez mais altos – sendo construídos.
É dessa época o Edifício Clemente Faria,
feito para ser a sede do Banco Lavoura (atual Banco Real),
na Praça Sete. Projetados por Oscar Niemeyer, o Edifício
JK, o Edifício do Bemge, o prédio do Colégio
Estadual Milton Campos (atual Estadual Central), o Edifício
Niemeyer e a sede da Biblioteca Pública Estadual
são belos exemplares da arquitetura moderna caracterizados
pela simplificação de formas e pelo uso de
esquadrias metálicas, concreto, vidros e revestimentos
de mármores e pastilhas.
Foi nos anos 50 que a cidade passou a ser influenciada pelo
estilo de vida americano. Aquela era a época das
grandes orquestras, que faziam sucesso não apenas
no rádio, como também na recém-inaugurada
TV Itacolomi. Nas boates e nos clubes – cada vez mais
numerosos – tinham lugar as "horas dançantes"
e os bailes de gala. Já para a população
mais pobre, a diversão acontecia mesmo na rua, proporcionada
pelas apresentações do cine grátis.
O progresso avança pela cidade
O crescimento econômico transformou o perfil de Belo
Horizonte na década de 60. Sem respeito pela memória
da cidade, o progresso avançou sobre suas ruas, demolindo
casas, erguendo arranha-céus, derrubando árvores,
cobrindo tudo de asfalto. Já não era possível
reconhecer a "Cidade-Jardim" que tanto encantara
os poetas; a cidade verde tinha ficado no passado. Era preciso
desafogar o trânsito e as avenidas rasgavam cada vez
mais o tecido da cidade. Até o "Pirulito"
foi retirado da Praça Sete, como parte das transformações
radicais, e foi deixado no Museu Abílio Barreto.
A descaracterização da cidade fez-se sem remorsos.
Se os espaços verdes desapareciam, se a beleza das
antigas construções era transformada em pó,
em seu lugar surgiam edifícios modernos, novas e
novas indústrias.
Os anos 60 foram marcados pelo crescimento das indústrias
e das instituições financeiras. Nessa época,
Belo Horizonte começou a irradiar seu crescimento
e suas cidades vizinhas também receberam muitos investimentos
e fábricas. Esse progresso, contudo, não se
fez sem o agravamento das desigualdades e problemas sociais.
O surgimento de inúmeras favelas comprova o desequilíbrio
causado pela concentração de renda.
Mas, não foi somente o desenvolvimento econômico
que modificou a rotina de Belo Horizonte. A instauração
da ditadura militar, após o Golpe de 64, também
levou a população às ruas. Primeiro
foram as mulheres católicas – que com seus
terços em punho, apoiaram o "movimento que nos
livrara do perigo comunista". A manifestação
foi denominada a "Marcha da Família com Deus
pela Liberdade". Mais tarde, vieram os estudantes –
dessa vez, protestando contra a falta de liberdade, o desrespeito
aos direitos humanos e constitucionais. Inúmeras
vezes, a Praça Sete assistiu à multidão
ser dispersada com bombas e a prisão de manifestantes.
Em 1978, seria a vez da campanha pela anistia dos presos
políticos mobilizar os belo-horizontinos.
Na década de 70, a cidade era o próprio retrato
do caos. Com um milhão de habitantes, belo Horizonte
continuava crescendo desordenadamente. Nas regiões
norte e oeste e nos municípios vizinhos, com a criação
de distritos industriais e a instalação de
empresas multinacionais, a população tornou-se
cada vez mais densa. Na tentativa de resolver os problemas
causados pela falta de planejamento, foram tomadas várias
medidas: criou-se o Plambel e instituiu a Região
Metropolitana de Belo Horizonte.
A política de crescimento econômico acelerado,
porém não resolvia os problemas sociais. A
crise prolongada e os baixos salários levaram a população
mais uma vez às ruas, já no final da década.
Professores da rede pública e operários da
construção civil, paralisando a cidade na
greve de 1979, mostraram seu descontentamento com relação
aos problemas econômicos e sociais, mas também
em relação ao regime militar.
Os cidadãos redescobrem Belo Horizonte
A chegada dos anos 80 marcou o início de uma mudança
nas relações do belo-horizontino com sua cidade.
O crescimento desordenado e os problemas de perda de importantes
marcos da história de Belo Horizonte, a degradação
ambiental e as desigualdades sociais, foram pouco a pouco,
tornando-se algumas das maiores preocupações
dos cidadãos. A consciência de que é
preciso cuidar da cidade, ao mesmo tempo permitindo seu
desenvolvimento e garantindo a qualidade de vida de seus
habitantes, difundiu-se cada vez mais entre a população.
Foi ao longo da década de 80 que o belo-horizontino
redescobriu o espaço das ruas, fazendo dele o palco
de suas manifestações, de seus protestos e
de suas artes. Em 1980, milhares pessoas tomaram a Avenida
Afonso Pena e a então Praça Israel Pinheiro
(hoje, Praça do Papa) para receber o próprio
Papa João Paulo II. Em 83, diversas entidades e cidadãos
saíram às ruas para protestar contra a demolição
do prédio do Cine Metrópole, defendendo seu
tombamento pelo Patrimônio Histórico. Em 84,
a multidão lotou a Praça da Rodoviária
para dar força à campanha "Diretas Já",
participando do comício que reuniu nomes como Tancredo
Neves, Ulisses Guimarães, Brizola e Lula. Um ano
depois, os mesmos manifestantes chorariam a morte do recém-eleito
presidente Tancredo Neves, acompanhando seu velório
no Palácio da Liberdade. Mais recentemente, em 92,
seria a vez dos jovens "cara-pintadas" protestarem
contra a corrupção e exigirem o impedimento
do presidente Fernando Collor.
Uma mentalidade diferente daquela que orientou o crescimento
nas décadas anteriores começava a surgir.
As obras realizadas na cidade ganharam nova direção.
Em 1981, adotou-se um novo sistema de transporte, na tentativa
de melhorara situação do trânsito na
cidade. Foi iniciada a implantação do metrô
de superfície como uma alternativa rápida,
segura e menos poluente para o transporte de massa. Em 84,
a canalização do Ribeirão Arrudas,
que está sendo concluída agora em 1997, pôs
fim ao problema das enchentes que todos os anos causava
prejuízos ao centro da capital.
A memória da cidade começou a ser mais valorizada,
com o tombamento de vários edifícios de importância
histórica. A população ganhou, ainda,
diversos espaços de lazer, como o Parque das Mangabeiras,
inaugurado em 82, e o Mineirinho. A área de saúde
também experimentou grandes avanços com a
redução do número de casos de poliomielite
e tétano, graças às campanhas de vacinação
infantil.
Ainda assim os problemas não desapareceram. A Pampulha,
um dos principais cartões-postais da cidade, era
uma lagoa praticamente morta, tão poluída
estavam suas águas. Uma praga de aguapés havia
tomado conta de quase toda a superfície da lagoa,
reproduzindo-se descontroladamente e provocando um desequilíbrio
ecológico.
Na década atual, a valorização do espaço
urbano teria continuidade. Em 1990, a Lei Orgânica
do Município foi aprovada, trazendo avanços
em diversos setores sociais. Em 92, criou-se o Conselho
Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município
para tratar do tombamento de construções de
valor histórico. Espaços como a Praça
da Liberdade, a Praça da Assembléia e o Parque
Municipal, que se encontravam abandonados e desvalorizados,
foram recuperados e a população voltou a freqüentá-los
e a cuidar de sua preservação. Em 96, o Plano
Diretor da cidade e a Lei de uso e Ocupação
do Solo passaram a regular e ordenar o crescimento da capital.
A cultura passou a ser valorizada como um instrumento de
conquista da cidadania. Assim, surgiram inúmeros
projetos com o objetivo de popularizar a arte. O Grupo de
Teatro Galpão é um dos que levam seus espetáculos
às ruas. Com ele surgiu a iniciativa do Festival
Internacional de Teatro Palco e Rua. Na dança, há
os exemplos dos grupos 1º Ato e Corpo. Na música,
o Coral Ars Nova, já se apresentou em todos os continentes
e venceu diversos concursos internacionais de coros, e o
Grupo Uakti, principal grupo de música instrumental
e experimental do Brasil.
Clique
aqui e saiba mais sobre Belo Horizonte<<<<