As invasões francesas do Brasil registram-se desde
os primeiros tempos da colonização portuguesa,
chegando até ao ocaso do século XIX.
Inicialmente dentro da contestação de Francisco
I de França ao Tratado de Tordesilhas, ao arguir
o paradeiro do testamento de Adão e incentivar a
prática do corso para o escambo do pau-brasil (Cæsalpinia
echinata), ainda no século XVI evoluiu para o apoio
às tentativas de colonização no litoral
do Rio de Janeiro (1555) e na costa do Maranhão (1594).
A França Antártica
Em 1555, uma expedição com cerca de cem homens,
distribuídos em dois navios, comandada por Nicolas
Durand de Villegagnon, dirigiu-se à baía de
Guanabara, visando a estabelecer um núcleo de colonização.
Inicialmente, aportaram à Isle Rattier (atual Forte
Tamandaré da Laje), tentando erguer uma bateria defensiva,
sendo expulsos pela alta da maré. Dirigiram-se, em
seguida, à ilha de Serigipe (atual ilha de Villegaignon),
onde se estabeleceram definitivamente, erguendo o Forte
Coligny.
A denominada França Antártica abrigava colonos
protestantes calvinistas e elementos católicos que
procuravam evitar as guerras religiosas que então
dividiam a Europa.
Em 1558 Villegaigon retornou à França, após
incidentes causados pela indisciplina de alguns colonos,
que procuravam as indígenas locais, e pelas rixas
entre católicos e protestantes. Condenou à
morte e executou vários colonos, expulsando os calvinistas
para as margens da baía.
A campanha portuguesa de 1560
Esta tentativa de colonização foi erradicada
militarmente pelo terceiro Governador Geral do Brasil, Mem
de Sá (1560), que, com informações
sobre o forte fornecidas pelos dissidentes franceses Jean
de Cointa e Jacques Le Balleur, e reforços vindos
da Capitania de São Vicente, a 15 de Março
abriu fogo das naus contra as defesas da ilha. Em seguida,
através de um estratagema, logrou o desembarque de
homens e artilharia na ilha, conquistada no dia seguinte,
sendo o forte arrasado. No dia 17 foi celebrada missa solene
em ação de graças pela vitória.
A campanha de 1565-1567
Os remanescentes franceses que se refugiaram junto às
tribos indígenas na região foram posteriormente
liquidados por seu sobrinho, Estácio de Sá
numa campanha que se estendeu de 1565 a 1567, quando foi
fundada a cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro (1 de Março de 1565), no sopé do morro
Cara de Cão (atual morro do Pão de Açúcar).
Após a derrota dos franceses e seus aliados indígenas,
nas batalhas da praia da Glória (hoje desaparecida)
e da atual Ilha do Governador (1567), a cidade foi transferida
para o alto do morro do Descanso, posteriormente denominado
como Alto da Sé, Alto de São Sebastião,
morro de São Januário e, finalmente, Morro
do Castelo, desmontado em 1922.
A França Equinocial
A segunda tentativa se registrou na ilha de São
Luís, no Maranhão, a partir de 1594, tendo
perdurado até à sua erradicação
por tropas portuguesas e nativas em 1615.
Os franceses em Cabo Frio
Mesmo diante do fracasso dessas posições,
a presença francesa foi expressiva em outros trechos
do litoral, onde mantiveram feitorias como por exemplo a
Maison de Pierre no litoral de Cabo Frio e outras.
Os corsários
Até ao século XVIII, era comum piratas e
corsários de diversas nacionalidades pilharem povoados
e engenhos no litoral brasileiro. A descoberta de ouro no
sertão das Minas Gerais reacendeu a cobiça
desses elementos, atraindo-os para o litoral da região
Sudeste. Entre os assaltos mais famosos, registram-se, em
Agosto de 1710, o do corsário Jean-François
Duclerc (1671-1711), e, em Setembro de 1711, o de René
Duguay-Trouin, ambos ao Rio de Janeiro.
A invasão de Duclerc (1710)
No contexto de hostilidades entre a França e a Inglaterra,
o rei Luís XIV de França autorizou o corso
aos domínios ultramarinos de Portugal, tradicional
aliado dos britânicos. Por essa razão, em meados
de Agosto de 1710, Jean-François Duclerc, no comando
de seis navios e cerca de 1 200 homens, surgiu na barra
da baía de Guanabara hasteando pavilhões ingleses
como disfarce. As autoridades no Rio de Janeiro, alertadas
pela Metrópole, já aguardavam a vinda do corsário
francês, razão pela qual o fogo combinado da
Fortaleza de Santa Cruz da Barra e da Fortaleza de São
João repeliu a frota que tentava forçar a
barra (16 de agosto).
Os franceses navegaram pelo litoral para Sudoeste, rumo
à baía da Ilha Grande, saqueando fazendas
e engenhos. Lá, aportaram à barra de Guaratiba,
onde desembarcaram, marchando por terra para a cidade do
Rio de Janeiro. No percurso passaram pelo Camorim, por Jacarepaguá,
pelo Engenho Novo e pelo Engenho Velho dos Padres da Companhia
de Jesus, descansando neste último. No dia seguinte
prosseguiram pela região do Mangue, alcançando
a falda do morro de Santa Teresa (depois rua de Mata-Cavalos,
atual rua do Riachuelo), até ao morro de Santo Antônio,
que contornaram até à Lagoa do Boqueirão.
Pela rua da Ajuda (atual Melvin Jones) e de São José,
alcançaram o Largo do Carmo (atual Praça XV
de Novembro), onde encontraram a resistência dos habitantes
em armas, tendo se destacado a ação dos estudantes
do Colégio dos Jesuítas, que desceram o morro
do Castelo. Nesta escaramuça, afirma-se que os franceses
perderam 400 homens. Duclerc, que os comandava, foi detido
em prisão domiciliar à atual rua da Quitanda,
vindo a ser assassinado em condições misteriosas
por um grupo de encapuzados, alguns meses mais tarde, a
18 de março de 1711, alguns autores supondo que por
questões passionais.
A população da cidade festejou entusiásticamente
a vitória durante vários dias. Infelizmente,
as autoridades coloniais superestimaram a capacidade do
sistema defensivo da barra, difundindo-se a crença
generalizada de que, após tamanha derrota, corsário
algum voltaria tentar forçá-la, o que se mostrou
dramaticamente incorreto.
A invasão de Duguay-Trouin (1711)
Esquadra de Duguay-Trouin.À iniciativa de Duclerc,
seguiu-se outra, maior e mais bem equipada, no ano seguinte.
Em setembro de 1711, coberta pela bruma da manhã,
aproveitando um vento favorável, uma esquadra de
18 navios, artilhada com 740 peças e 10 morteiros,
com um efetivo de 5 764 homens, sob o comando do corsário
francês René Duguay-Trouin ousadamente entrou
em linha pela barra da baía de Guanabara, furtando-se
ao fogo das fortalezas, desguarnecidas três dias antes,
graças a uma notícia recebida pelo então
Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Francisco de
Castro Morais (1699-1702), que dava como falsa a notícia
da chegada desta esquadra francesa.
O sucesso do corsário custou caro à cidade,
que necessitou pagar um valioso resgate pela sua liberdade
(novembro de 1711): 610.000 cruzados em moeda, 100 caixas
de açúcar e 200 cabeças de gado bovino.