Mapa do Brasil ColonialNo dia 9 de março de 1500,
o fidalgo português Pedro Álvares Cabral, saindo
de Lisboa, iniciou viagem para oficialmente descobrir e
tomar posse das novas terras para a Coroa, e depois seguir
viagem para a Índia (contornando a África
para chegar a Calicute). Levava duas caravelas e 13 naus,
e de 1.200 a 1.500 homens - entre os mais experientes Nicolau
Coelho, que acabava de regressar da Índia; Bartolomeu
Dias, que descobrira o cabo da Boa Esperança, e seu
irmão Diogo Dias (que mais tarde Pero Vaz de Caminha
descreveria dançando na praia em Porto Seguro com
os índios, « ao jeito deles e ao som de uma
gaita»). As principais naus se chamavam Anunciada,
São Pedro, Espírito Santo, El-Rei, Santa Cruz,
Fror de la Mar, Victoria e Trindade (RIBEIRO, «História
do Brasil», pág.43). O vice-comandante da frota
era Sancho de Tovar e outros capitães eram Simão
de Miranda, Aires Gomes da Silva, Nuno Leitão, Vasco
de Ataíde, Pero Dias, Gaspar de Lemos, Luís
Pires, Simão de Pina, Pedro de Ataíde, de
alcunha o inferno, além dos já citados Nicolau
Coelho e Bartolomeu Dias. Por feitor, a armada trazia Aires
Correa, que havia de ficar na Índia, e por escrivães
Gonçalo Gil Barbosa e Pero Vaz de Caminha. Entre
os pilotos, que eram os verdadeiros navegadores, vinham
Afonso Lopes e Pero Escobar. Diz a Crônica do Sereníssimo
Rei D. Manuel I:
«E, porque el Rei sempre foi mui inclinado às
coisas que tocavam a nossa Santa fé católica,
mandou nesta armada oito frades da ordem de S. Francisco,
homens letrados, de que era Vigário frei Henrique,
que depois foi confessor del Rei e Bispo de Ceuta, os quais
como oito capelães e um vigário, ordenou que
ficassem em Calecut, para administrarem os sacramentos aos
portugueses e aos da terra se se quisessem converter à
fé.»
Âncoras levantadas em Lisboa, a frota passou por
São Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde,
em 16 de março. Tinham-se afastado da costa africana
perto das Canárias, tocados pelos ventos alísios
em direção ao ocidente. Em 21 de abril, da
nau capitânea avistaram-se no mar, boiando, plantas.
Mais tarde surgiram pássaros marítimos, sinais
de terra próxima. Ao amanhecer de 22 de abril ouviu-se
um grito de "terra à vista", pois se avistou
o monte que Cabral batizou de Monte Pascoal, no litoral
sul da atual Bahia.
Ali aportaram as naus, discutindo-se até hoje se
teria sido exatamente em Porto Seguro ou em Santa Cruz Cabrália,
e fizeram contato com os tupiniquins, indígenas pacíficos.
A terra, a que os nativos chamavam Pindorama ("terra
das palmeiras"), foi a princípio chamada pelos
portugueses de Ilha de Santa Cruz e nela foi erguido um
padrão (marco de posse em nome da Coroa Portuguesa).
Mais tarde, a terra seria rebatizada como Terra de Vera
Cruz e posteriormente Brasil. Estava situada 5.000km ao
sul das terras descobertas por Cristóvão Colombo
em 1492 e 1.400km aquém da Linha de Tordesilhas.
Sérgio Buarque de Holanda descreve, em História
Geral da Civilização Brasileira:
«Tendo velejado para o norte, acharam dez léguas
mais adiante um arrecife com porto dentro, muito seguro.
No dia seguinte, sábado, entraram os navios no porto
e ancoraram mais perto da terra. O lugar, que todos acharam
deleitoso, proporcionava boa ancoragem e podia abrigar mais
de 200 embarcações. Alguma gente de bordo
foi à terra, mas não pode entender a algaravia
dos habitantes, diferente de todas as línguas conhecidas».
No dia 26 de abril, um domingo (o de Pascoela), foi oficiada
a primeira missa no solo brasileiro por frei Henrique Soares
(ou frei Henrique de Coimbra), que pregou sobre o Evangelho
do dia. Batizaram a terra como Ilha da Vera Cruz no dia
1 de maio e numa segunda missa Cabral tomou posse das terras
em nome do rei de Portugal. No mesmo dia, os navios partiram,
deixando na terra pelo menos dois degredados e dois grumetes
que haviam fugido de bordo. Cabral partiu para a Índia
pela via certa que sabia existir a partir da costa brasileira,
isto é, cruzou outra vez o Oceano Atlântico
e costeou a África.
O rei D. Manuel I recebeu notícia do descobrimento
por cartas escritas por Mestre João e Pero Vaz de
Caminha, semanas depois. Tranportadas na nau de Gaspar de
Lemos, as cartas descreviam de forma pormenorizada as condições
geográficas e seus habitantes, desde então
chamados de índios. Atento aos objetivos da Coroa
na expansão marítima, Caminha informava ao
rei:
«Nela até agora não podemos saber que
haja ouro nem prata, nem alguma coisa de metal nem de ferro
lho vimos; pero a terra em si é de muitos bons ares,
assi frios e temperados como os d´antre Doiro e Minho,
porque neste tempo de agora assi os achamos como os de lá;
águas são muitas infindas e em tal maneira
é graciosa, que querendo aproveitar-se dar-se-á
nela tudo por bem das águas que tem; pero o melhor
fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar
esta gente (...) boa e de boa simplicidade».
Damião de Góis narra o descobrimento
em sua língua renascentista:
«Navegando a loeste, aos xxiiij dias do mes Dabril
viram terra, do que forão muito alegres, porque polo
rumo em que jazia, vião não ser nenhuma das
que até então eram descubertas. Padralures
Cabral fez rosto para aquela banda & como forão
bem à vista, mandou ao seu mestre que no esquife
fosse a terra, o qual tornou logo com novas de ser muito
fresca & viçosa, dizendo que vira andar gente
baça & nua pela praia, de cabelo comprido &
corredio, com arcos & frechas nas mãos, pelo
que mandou alguns dos capitães que fossem com os
bateis armados ver se isto era assi, os quaes sem sairem
em terra tornaram à capitaina afirmando ser verdade
o que o mestre dixera. Estando já sobrancora se alevantou
de noite hum temporal, com que correram de longo da costa
ate tomarem hum porto muito bom, onde Pedralures surgio
com as outras naos & por ser tal lhe pos nome Porto
Seguro».
Além das cartas acima mencionadas, outro importante
documento sobre o descobrimento do Brasil é o Relato
do Piloto Anônimo.
De início, a descoberta da nova terra foi mantida
em sigilo pelo Rei de Portugal. O resto do mundo passou
a conhecer o Brasil desde pelo menos 1507, quando a terra
apareceu com o nome de América na carta (mapa) de
Martin Waldseemüller, no qual está assinalado
na costa o Porto Seguro [1].
A controvérsia sobre o descobrimento será
estudada em verbete à parte, dada sua extensão.